domingo, 5 de março de 2017

VAMOS PEGAR UNS GALHOS LÁ FORA

Um barraco em Marte

É SEMPRE BOM FALAR DOS NOSSOS SENTIMENTOS

ESCOLHAM

Eu disse: escolham um tema pra Fanzine de vocês. E eles escolheram.

CARTA PARA VAN GOGH

Um quarto de artista e uma caixa de sapatos
Aula em dia de chuva - fevereiro de 2017

PERTENCER

Os casacos ficavam pendurados perdidos próximos à quadra, separados por nomes e gênero. Os dias passavam e eles continuavam ali. Eu sempre me deparava com essa imagem após o término das aulas, em que a escola “ficava vazia”, porém os casacos assumiam uma função de pertencimento, de continuidade, de resquícios. Era uma forma simbólica dos alunos permanecerem por meio daquele artefato, naquele espaço.
Espaço este ocupado por meninas e meninos quando colocados lado a lado na dinâmica das brincadeiras. Em sua maioria, “roupas esquecidas pelos meninos” (dizia uma das funcionárias) à outra. Estes eram mais resistentes em deixar a quadra ao término da educação física no ultimo horário de aula, esquecendo-se dos casacos.
Outro dia passei lá por perto e percebi que a quantidade havia diminuído, muitos foram embora, estava frio de novo em Macapá, e a quadra vazia outra vez.
Casacos pendurados

UM OCEANO

Filas, grupos de alunos, corre-corre, casacos perdidos pendurados, brincadeiras, rodas de alunos tirando foto, aparelhos eletrônicos. A escola é pouco a pouco ocupada com vozes e corpos. A hora da entrada é sempre um momento de efervescência, de encontros, segredos, cochichos, risadas, companheirismo.
Enfim todos formam as fileiras, ao sinal, e levam a mão direita ao peito para cantar o hino, neste momento os olhos procuram atentos o hasteamento da bandeira, assim cantam até o final com muita atenção.
Foi um período intenso de vivência dentro e fora da sala, e entre hinos e correrias, havia lugar também para o afeto, o olho no olho, o quero não-quero, a pausa no conteúdo para uma conversa sobre a vida e suas reverberações no que somos.
Havia tempo para sentarmos em roda no chão e falarmos sobre nossos gostos, sobre o noticiário da tv ou sobre como arramar sapatos. Sempre, sempre que todos percebiam que ouvir o outro era uma porta que se fechava lentamente, alguém sinalizava com um gesto invisível, porém entendido pelo grupo. E assim repetíamos os passos e sentávamos para ouvir e trocar e trocar, trocar.
Penso que essa foi uma das primeiras formas permanentes de pensar em minha prática ao entrar naquele espaço, entender que o afeto afeta nosso modo de viver a educação, arrebentando qualquer teoria, ou emocionar-se em contar uma história em roda nos torna mais empáticos. Revela-nos que arte só e possível compartilhada.
Durante os quatro meses percebi que estes encontros eram a diretriz dos registros, que posteriormente seriam escritos. Porém sem dar por mim, relembrei ao final do processo e tive a certeza de que em pesquisa, a escrita não comporta em sua totalidade a fluidez sensorial que nos atravessam e vão muito além: com sentidos/gestos/lágrimas. Muita coisa ficou de fora da escrita mas o oceano permanece aqui todo dia. Ele não cabe em um papel de pós-graduação.

Na quadra