domingo, 5 de março de 2017

UM OCEANO

Filas, grupos de alunos, corre-corre, casacos perdidos pendurados, brincadeiras, rodas de alunos tirando foto, aparelhos eletrônicos. A escola é pouco a pouco ocupada com vozes e corpos. A hora da entrada é sempre um momento de efervescência, de encontros, segredos, cochichos, risadas, companheirismo.
Enfim todos formam as fileiras, ao sinal, e levam a mão direita ao peito para cantar o hino, neste momento os olhos procuram atentos o hasteamento da bandeira, assim cantam até o final com muita atenção.
Foi um período intenso de vivência dentro e fora da sala, e entre hinos e correrias, havia lugar também para o afeto, o olho no olho, o quero não-quero, a pausa no conteúdo para uma conversa sobre a vida e suas reverberações no que somos.
Havia tempo para sentarmos em roda no chão e falarmos sobre nossos gostos, sobre o noticiário da tv ou sobre como arramar sapatos. Sempre, sempre que todos percebiam que ouvir o outro era uma porta que se fechava lentamente, alguém sinalizava com um gesto invisível, porém entendido pelo grupo. E assim repetíamos os passos e sentávamos para ouvir e trocar e trocar, trocar.
Penso que essa foi uma das primeiras formas permanentes de pensar em minha prática ao entrar naquele espaço, entender que o afeto afeta nosso modo de viver a educação, arrebentando qualquer teoria, ou emocionar-se em contar uma história em roda nos torna mais empáticos. Revela-nos que arte só e possível compartilhada.
Durante os quatro meses percebi que estes encontros eram a diretriz dos registros, que posteriormente seriam escritos. Porém sem dar por mim, relembrei ao final do processo e tive a certeza de que em pesquisa, a escrita não comporta em sua totalidade a fluidez sensorial que nos atravessam e vão muito além: com sentidos/gestos/lágrimas. Muita coisa ficou de fora da escrita mas o oceano permanece aqui todo dia. Ele não cabe em um papel de pós-graduação.

Na quadra

Um comentário:

  1. Não cabe mesmo Rafa - é isso não é um problema, é um além: arrebenta a teoria por fazer existir, escoar, chegar. É pra arrebentar mesmo, rolar pelos cantos e avante mesmo: nada de arte retida, fins pontuados, contenções em círculos formados.

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