domingo, 28 de dezembro de 2014

Alvos e gaiolas

A última intervenção deste ano foi a mais emocionante e a mais generosa também. Não teve registros, nem plateia nem grandes alardes. Contou apenas com a surpresa do inesperado. E aqui deixo um dos trabalhos que mais interagiu com a galera que chegou junto!



Colagem sobre papel
18x22
2014
Rafaela Sena

sábado, 27 de dezembro de 2014

Síndrome da poesia bem comportada



Era uma poesia bem comportada,
não tinha cara de nada. 
Nem simbolista nem parnasiana,
só queria rimar com a Ana.
Usava saia, laço no cabelo.
Pintava-se toda 
Demoraaaava na frente do espelho.
Mesmo assim era toda mal aprumada,
todos riram dela, coitada.
Muito triste e desengonçada
saiu pela rua, correu desembestada.
Andou na beira da estrada.
Mas no meio do caminho tinha uma pedra.
Era Carlos vendendo cartas de amor ridículas,
e dos olhos da poesia saíram faíscas
eles se olharam
e em cima da pedra de mãos dadas ficaram.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Os Plácidos



Nasceu de uma absurda explosão
Entre o mato e o clarão ascendeu
Coisa alguma 
Com emergência de nascer
Que nasce por nascer
Que brota de morte oblíqua
Sobre as casas de tauba
Podres envelhecidas cortinas de chita
Entrava
Dedilhava as gavetas 
Desarrumava o capim
Com o olho em riste apontava
No meio da rua pairava
A rua era livre
Os cabelos da menina presos no laço de chita
A poeira viva na sola dos sapatos 
A comida mal paga
O ônibus que não parou
Correu-ficou
Comeu a tauba a explosão o clarão
Comprou jornal
Leu pesados corpos que a poeira estraga
Tornou a ser oblíquo
Explodiu
Viam-se espantados os plácidos
Maquinalmente postados em classes
Famigeradas classes  
de carnavais e ânus novos.