segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Oficina de Lambe no Encanto dos Alagados

A poesia desta vez teve como cenário as palafitas do Encanto dos Alagados no Bairro do Muca, um projeto lindo, um espaço aberto para o teatro, a literatura, a leitura e toda e qualquer manifestação que leve a arte pra vida daquela comunidade. 

A oficina de lambe despertou a curiosidade das crianças e jovens que chegavam de mansinho e por ali ficavam pra fazer parte desta construção. E de repente todos estavam participando! então a mágica acontecia com o lápis e o papel na mão!


A produção era totalmente livre: frases, palavras, recados, mensagens e o que mais queriam dizer e deixar gravado.


A mostra dos registros de intervenções urbanas foi uma inspiração a mais



A poesia surgia  sob o cantos das andorinhas... 




Casa de "tauba", ponte de "tauba"... gente concreta...



"Página vazia, melodia... onde é que a palavra vai cair? onde vai cair?"


E num piscar de olhos o sonho individual se confundia com um sonho coletivo...



E o que vinha do coração se materializava nas mãos...


E a vida corria ao redor...



E a menina tirava suas confissões do caderno-diário...


E a mão da menina tecia a realidade...


E tinha lugar pra todo mundo falar, mesmo que fosse com os olhos...


E com o coração...


E a noite chegava devagarinho...


Mas não apagava a poesia da espontaneidade...
O menino Rogério nos levou a sua casa e colou seu lambe bem na porta do quarto...
E a Luziele e a Geovana foram homenageadas...



Usando o grude pra fixar desejos...


Saudade tem nome...


E a noite acordou...



E pra fechar, um texto de uma jovem que participou da oficina e que muito lindamente nos ensina a amar um pouco mais a vida...



“Vamos aproveitar a liberdade para sorrirmos, agradar com um olhar amigo e abraços e carinhos sinceros, vamos fazer a paz, cuidando de alguém que anda com um olhar triste porque sofreu algo que o perturbou. Acalmar duas pessoas estranhas ou amigas. Deixando assim ambas com seus corações contentes.



Fotos: Leila Cardoso e Rafaela Sena.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Saudade não tem nome



Tinha perdido as chaves desta estrada
esquecido os cânticos
a marcha...
Mas hoje
teu rosto rompe a madrugada
Decreta o destrato
Anula o grito.

Esta saudade não te chama
Ela inflama
meu coração 
em cores de tinta
Vermelho azul cinza

Saudade não tem nome
tem teus olhos postos 
intactos no retrato
Histórias findas
Interminável fuso

Saudade não tem nome
Tem esse quarto
Esta carta 
Este retrato
Interminável forma de você.

Poesias que inspiram: Canção da Tarde no Campo

A poesia as vezes salva, Cecília tem me salvado constantemente...




Caminho do campo verde
estrada depois de estrada.
Cerca de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.

Meus pés vão pisando a terra
Que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a tarde é minha.

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua;
vou chegando, vai fugindo,
minha alma é a sombra da tua.

Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto,
meu peito é puro deserto.
Subo monte, desço monte.

Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.

(Meireles, C., 1967)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Soneto ao Estranhamento



Não te ampares na voz que o eco exala
Nem no brilho turvo que o pergaminho traduz
Se até a lânguida opala
floresce, cativa e transluz.

Emudece-te ante a letra aflitiva
Inclinada ao açoite, revolta, impávida
Alabastro insólito que a pena esmaga
Rouquidão ágrafa, permanente dádiva.

Lucidez esquálida
Tão tardia quanto vaga
Proposta inalterada.

Decaído em mato funesto
Garimpa o sentido enclinômeno, aponta!
Ante a lasciva embriaguez que te afronta.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Escrita e clausura: Urbanas



A história nos aponta mulheres muito, muito fortes, que estão e não estão nos livros, e assim deram a cara à tapa, ou escolheram não sair dos limites do trabalho doméstico mas fizeram revolução, enfrentaram toda uma sociedade conservadora e machista, porém, convictas em seus ideais.
A reflexão que acompanha minha trajetória acadêmica se depara com a clandestinidade de escritoras mulheres e estas dimensões ocultas, invisíveis, que predominavam como eco mudo na nossa história, mas que aos poucos se revelavam, porém ainda encobertas por uma escrita de clausura. 
     Possivelmente uma página esquecida e mal contada por muito tempo, o que é importante ressaltar quando homens se apropriavam da escrita feminina assinando-as como sua autoria, uma vez que a publicação de textos escritos por mulheres não eram vistos com bons olhos - fato que só mudaria em meados do séc. XVIII na Europa e início do séc. XIX no Brasil -, ou quando por vezes as mulheres assinavam com pseudônimos masculinos, estas ainda, não restituídas de autonomia e vistas como seres incapazes de opinar sobre quaisquer assuntos relevantes que não ultrapassassem os domínios dos afazeres do lar.
No contexto do século XVI e XVII a escrita feminina era vista como uma atividade que a afastava de atividades tradicionalmente “domésticas” e “femininas” por excelência, ou ainda de outros estereótipos legados pela história.
No cenário brasileiro, escritoras "surgem" principalmente no século XIX em um contexto de efervescência da imprensa e no início de movimentos que defendiam os direitos das mulheres, desde então “elas” se organizaram em grupos para reivindicar maior participação na sociedade que passava por grandes mudanças. Os primeiros movimentos organizados surgem nesta época, porém sob a vigilância constante de olhos masculinos “o que não impediu, porém, a formação de uma linhagem de mulheres militantes dentro da literatura (como personagens ou como autoras) e da sociedade (na militância política, por meio, sobretudo, do veículo jornalístico)” (ROSSO, 2006).
Sem dúvida a história nos conta momentos em que mulheres viviam sob forte controle ideológico, onde o sentir e o agir feminino foi sempre encoberto por um véu de repressão. Entretanto, muitas mulheres buscaram romper este ciclo, quebrando o silêncio e se fazendo perceber por entre as linhas de sua escrita, que dantes limitava-se ao espaço privado (pelo menos até o final do século XIX era explícito que o espaço privado era atribuído à mulher e o espaço público ao homem, a invasão feminina no espaço público, significava uma ruptura das convenções sociais) que agora ganham outros contornos, onde se escancara o amor, as mazelas do mundo e o cotidiano de suas casas patriarcalistas.
      Desse modo as vozes que dantes se restringiam ao papel, ganharam força nas vias públicas, invadindo espaços e fazendo reconhecer suas presenças “A rua simbolizava o espaço do desvio, das tentações” (SOIHET apud DEL PRIORE, 2007, p. 365). 
A poesia urbana feita por mulheres também pode ser considerada um ato de resistência contra sistemas opressivos, uma forma de se ramificar para outros espaços de expressão, de “falar” com a rua e seus sujeitos, não por imposição mas por “trocas” que estabelecem intervenções dos transeuntes ou do próprio espaço onde se inserem.
A arte urbana que tem como suporte a disseminação da poesia (através de materiais como o lambe lambe, stencil e o grafite), traz a potência da efemeridade, do momento, da experimentação momentânea e rica com a cidade, cria pequenas histórias coletivas, que contam de você, de mim e do outro. E desta forma viver as ruas é um exercício constante de homogeneizar os saberes individuais, subjetividades ocultas de mulheres artistas/escritoras que até pouco tempo atrás não tinham espaço, principalmente o espaço público.
Assim, a priori, há uma escrita que surge também na clausura, que antecede a rua, pois há a sensação de que ainda que se tenha uma aparente escrita livre, a mulher escritora ainda está envolta em um casulo moldado pela própria convenção social, que cria roteiros imaginários dos quais ela deve seguir: comportada, disciplinada, cultivando o belo, o delicado, o sensível.
Esta mesma sociedade dificilmente cria expectativas quanto a sua temática, afinal convencionou-se dizer que o amor e outros "sentimentalismos" são mesmo por decreto “coisa de mulher” e que não poderia ser diferente na sua arte literária. Ainda que se sigam estes moldes - que não tem nada de ilícito - a poesia feminina tem outros desdobramentos que jamais devem ser vistos pelo olhar “lugar comum”, afinal tantos anos de silêncio social só poderiam render histórias com novas versões, ainda não contadas: a versão feminina.
     Assim há de levar em conta que a literatura produzida por mulheres têm a força em modelar a tessitura imaginativa da escrita e transformá-la em delicadeza nas linhas sinuosas e tortuosas do cotidiano.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Uma folha em branco



Por estes dias de novidades
Há o dever de se reinventar
Eu apanho uma folha em branco
Recolho meus sorrisos
de manhã calma e serena.
Apanho o livro,
sem jeito,
ainda não costumeiro
do balé da minha vida.
Fito-o com olhar perdido,
receoso da missão.
Precisarei mais que palavras
pra escrevê-lo.
É preciso buscar aquele salto no escuro
adiado, interrompido, inacabado.
É preciso visitar as feridas das mãos,
colocar tudo numa prateleira,
emoldurar e nomeá-las como troféus.
Assim, a liberdade de traçar as linhas
desse imenso vazio
preencherá o que dentro não cessa.
O enfrentamento de uma arte clandestina,
o maior de todos os enfrentamentos da escrita:
Ser plural.