quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Escrita e clausura: Urbanas



A história nos aponta mulheres muito, muito fortes, que estão e não estão nos livros, e assim deram a cara à tapa, ou escolheram não sair dos limites do trabalho doméstico mas fizeram revolução, enfrentaram toda uma sociedade conservadora e machista, porém, convictas em seus ideais.
A reflexão que acompanha minha trajetória acadêmica se depara com a clandestinidade de escritoras mulheres e estas dimensões ocultas, invisíveis, que predominavam como eco mudo na nossa história, mas que aos poucos se revelavam, porém ainda encobertas por uma escrita de clausura. 
     Possivelmente uma página esquecida e mal contada por muito tempo, o que é importante ressaltar quando homens se apropriavam da escrita feminina assinando-as como sua autoria, uma vez que a publicação de textos escritos por mulheres não eram vistos com bons olhos - fato que só mudaria em meados do séc. XVIII na Europa e início do séc. XIX no Brasil -, ou quando por vezes as mulheres assinavam com pseudônimos masculinos, estas ainda, não restituídas de autonomia e vistas como seres incapazes de opinar sobre quaisquer assuntos relevantes que não ultrapassassem os domínios dos afazeres do lar.
No contexto do século XVI e XVII a escrita feminina era vista como uma atividade que a afastava de atividades tradicionalmente “domésticas” e “femininas” por excelência, ou ainda de outros estereótipos legados pela história.
No cenário brasileiro, escritoras "surgem" principalmente no século XIX em um contexto de efervescência da imprensa e no início de movimentos que defendiam os direitos das mulheres, desde então “elas” se organizaram em grupos para reivindicar maior participação na sociedade que passava por grandes mudanças. Os primeiros movimentos organizados surgem nesta época, porém sob a vigilância constante de olhos masculinos “o que não impediu, porém, a formação de uma linhagem de mulheres militantes dentro da literatura (como personagens ou como autoras) e da sociedade (na militância política, por meio, sobretudo, do veículo jornalístico)” (ROSSO, 2006).
Sem dúvida a história nos conta momentos em que mulheres viviam sob forte controle ideológico, onde o sentir e o agir feminino foi sempre encoberto por um véu de repressão. Entretanto, muitas mulheres buscaram romper este ciclo, quebrando o silêncio e se fazendo perceber por entre as linhas de sua escrita, que dantes limitava-se ao espaço privado (pelo menos até o final do século XIX era explícito que o espaço privado era atribuído à mulher e o espaço público ao homem, a invasão feminina no espaço público, significava uma ruptura das convenções sociais) que agora ganham outros contornos, onde se escancara o amor, as mazelas do mundo e o cotidiano de suas casas patriarcalistas.
      Desse modo as vozes que dantes se restringiam ao papel, ganharam força nas vias públicas, invadindo espaços e fazendo reconhecer suas presenças “A rua simbolizava o espaço do desvio, das tentações” (SOIHET apud DEL PRIORE, 2007, p. 365). 
A poesia urbana feita por mulheres também pode ser considerada um ato de resistência contra sistemas opressivos, uma forma de se ramificar para outros espaços de expressão, de “falar” com a rua e seus sujeitos, não por imposição mas por “trocas” que estabelecem intervenções dos transeuntes ou do próprio espaço onde se inserem.
A arte urbana que tem como suporte a disseminação da poesia (através de materiais como o lambe lambe, stencil e o grafite), traz a potência da efemeridade, do momento, da experimentação momentânea e rica com a cidade, cria pequenas histórias coletivas, que contam de você, de mim e do outro. E desta forma viver as ruas é um exercício constante de homogeneizar os saberes individuais, subjetividades ocultas de mulheres artistas/escritoras que até pouco tempo atrás não tinham espaço, principalmente o espaço público.
Assim, a priori, há uma escrita que surge também na clausura, que antecede a rua, pois há a sensação de que ainda que se tenha uma aparente escrita livre, a mulher escritora ainda está envolta em um casulo moldado pela própria convenção social, que cria roteiros imaginários dos quais ela deve seguir: comportada, disciplinada, cultivando o belo, o delicado, o sensível.
Esta mesma sociedade dificilmente cria expectativas quanto a sua temática, afinal convencionou-se dizer que o amor e outros "sentimentalismos" são mesmo por decreto “coisa de mulher” e que não poderia ser diferente na sua arte literária. Ainda que se sigam estes moldes - que não tem nada de ilícito - a poesia feminina tem outros desdobramentos que jamais devem ser vistos pelo olhar “lugar comum”, afinal tantos anos de silêncio social só poderiam render histórias com novas versões, ainda não contadas: a versão feminina.
     Assim há de levar em conta que a literatura produzida por mulheres têm a força em modelar a tessitura imaginativa da escrita e transformá-la em delicadeza nas linhas sinuosas e tortuosas do cotidiano.

Um comentário:

  1. Belíssimo texto Rafa.
    Alias eu tenho uma poesia, que ainda irei publicar que trata com delicadeza desse assunto. Século passado, a função da mulher na sociedade era meramente de procriar a espécie do macho. Sentimentos, desejos, e a liberdade de escrever, de opinar, eram reprimidas pela elite machista. Particularmente, eu já gosto de ler obras femininas, pela gama de sentimentos e lirismos que elas transmitem.

    Abraços,
    Dan,

    PS: A poesia veio com força no inicio desse ano sim, rs! Ando bem criativo e lendo de tudo. Agradeço-te pelos seus comentários, tão importantes e explicativos para mim.

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