sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Homenagens

Hoje a Poesia Todo Dia tá na rua, na esquina, no quintal, na cozinha, no trabalho de cada dia, no rosto anônimo. Hoje a homenagem vai para o barulho da enxada, a flor apagada pela fumaça da panela, o avental que fica atrás dos balcões e tantos outros personagens que estão por aí todo dia construindo e recontando sua história.


Pausa no trabalho dos moços


Flores abandonadas também são estrelas

E tudo descansava no muro

Era uma casa muito engraçada...


domingo, 22 de setembro de 2013

Espelho

Ilustração de Amanda Mol

Que medo é esse 
que me deixa em frente ao espelho?
Que tranca a porta
e conta as horas
 para andar descalço na rua?
É o mesmo que me penteia os cabelos
Sopra minha comida
Deita na grama 
como se fosse cama.

Que medo é esse
de pensar no depois
e encontrar solidão
no instante que abro a janela
Deixando cair o retrato
antigo
Rompendo o laço 
do ontem
Molhar as mãos
em lago profundo 
abrir os olhos
esbarrar no mundo.

Medos são horas 
feitas de solidão
Repousam na moldura do espelho
Pintam paredes cruas
Seguem na volta
na ida 
Medos são famintos 
de vida.


domingo, 15 de setembro de 2013

Muro é tudibom!

Ontem o NUFOC (Núcleo de Fotografia Contemporânea) saiu às ruas para mais uma ação, desta vez o espaço escolhido foi um muro muito simpático que fica em frente ao nosso majestoso rio Amazonas na orla do Araxá. O vento não só deu as caras por lá como também quis pra ele metade dos trabalhos, sem cerimônia levou algumas 'Palavras do Dia' (Cristiana Nogueira) e as fotografias (do projeto Como morre uma fotografia?) de Lene Moraes, mas o muro ficou lindo! As xilogravuras (projeto Cardume) do artista Jarbas Macedo (Rio Grande do Sul) deram um toque todo especial, perfeita poética ali as margens do Rio Amazonas.   


















sábado, 14 de setembro de 2013

Um não sei-quê de amor



De repente
Lá vem ele de novo
O amor
Eterna procissão.
Joga-me na correnteza
Chego ao oceano
Invado abismos
Tropeço em relva florida
Durmo na rua
Acordo no céu
Ouço rock
Danço valsa.
E tudo que sinto
É incompreensível...
Abstrato...
Fora de mim...
Tudo que sinto é isto,

Um não sei-quê de amor.

Momento



Por um momento, tudo se dissipa...
Tudo se esvai...
A vida escorre pelas mãos
como líquido em ouro, preciosa.

Os sentimentos se escondem
Como animal ferido
A chuva cai em tempestade
Anuncia o dia sem cores.

Por um momento
O passado é presente
Sonho com os pés no chão
Fujo do que sou.

Por um momento,
Existem dois mundos,
E uma só vida

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Sobre silêncios: O bobo

O bobo anda na rua
Sobe a calçada
Tem gravata
Tem chinelo
Usa cinto
Usa martelo
O bobo não a olha
Não a conhece
Diz bom dia
Ela não agradece
O bobo não contente
ofende
Ela não o conhece
O bobo sorri
Ela corre
Muda a direção
Libertação
Atravessa a avenida
Dobra a esquina
O bobo a chama
Vadia?

Ela não o conhece.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Feira

A rua nos diz que somos construtores de uma história coletiva, que conta de você, de mim e do outro. Corpo, gestos e olhares se/me revelam, se desdobram em infinitas formas de percepções do mesmo espaço. Texto participante da exposição: "De tanto olhar para longe, não vejo o que passa perto" julho de 2013.




Um dia abafado de feira, final de tarde, os comerciantes anunciavam suas vendas atraindo a clientela. A feira e seus cheiros, os buracos no asfalto cheios de lama se misturavam com as verduras, sacas de farinha e carnes de porco, que aos montes eram vendidos.
Tudo parecia fazer parte irrenunciável da mesma paisagem, tudo era necessário e preciso, até o cansaço do carregador de batatas.
O barulho ensurdecedor do trânsito anunciava a caminhada agonizante dos transeuntes, por vezes os passageiros dos ônibus olhavam pela janela a movimentação, um olhar corriqueiro e desatento para os que andavam nas calçadas.
Sentei-me no banco que ficava em frente às barracas e percebi que apesar de todos estarem ali, compartilhando o mesmo ar, o mesmo chão, as mesmas palavras, todos incrivelmente estávamos distantes um do outro.
Era uma estranha distância na alma, no olhar. Éramos como bichos de espécies diferentes, enclausurados em uma grande caixa.
Os mendigos que por ali andavam se misturavam aos bem trajados madames e doutores, os bêbados resmungavam palavras desconexas para chamar atenção das mocinhas e senhoritas que compravam frutas.


E este era o único mundo onde todos estavam representando seus devidos roteiros: o vendedor vendendo, o mendigo mendigando, os burgueses gastando, os bêbados atrapalhando e eu brincando de ser, apenas sendo.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Sobre silêncios


No meio do alvoroço um moço
No meio da praça um segredo
Com o corpo preso.
Surpreendidos! todos ficaram aflitos.
Aquilo me atingiu
Aquilo nos acusou
Inflamamos gritos.
Naquele momento passamos a ser ele
E ele fez parte de nós
Ficou horas ali parado no chão de barro

Sujo, mudo e culpado

Culpado sem juramento
Preso sem redenção.
Eis quais eram suas sentenças
O moço na praça
No seu silêncio
Condenava-nos

A culpa coletiva
Aos poucos... sua história de vida
Ladrão de galinha
Ladrão de gente
Um coitado
Uma vítima
Curioso... As descobertas revelam
Muito mais de quem as pergunta.
Mas como se libertar?
Se somos labirinto?